O que é Adoção em Aberto

Não sei se no Brasil já existe um termo para "Open Adoption", ou seja, "Adoção Aberta", ou "Adoção em Aberto".

 

Adotamos nossa filha usando esta opção ao invés de "closed adoption" (adoção fechada, em segredo). Através da adoção em aberto, a mãe biológica de nossa filha será sempre bem-vinda para manter contato e receber fotos da nossa filha até ela atingir 18 anos de idade. De vez em quando (uma ou duas vezes por ano), vamos todos nos encontrar em um local público, um shopping ou parque. Nossa filha vai crescer sabendo tudo sobre sua adoção e sua família biológica.

 

O motivo da adoção em aberto é para o benefício da criança, que terá melhores chances de crescer sem traumas psicológicos por ser adotada. Ao crescer conhecedo sua mãe biológica, ela provavelmente não vai sentir-se abandonada ou rejeitada pela família de nascença, não vai passar noites em claro imaginando o paradeiro de sua mãe biológica, além de outros beneficios, tais como conhecer seus irmãos e primos biológicos (se estes vierem a existir) ou até mesmo receber ou doar um transplante de órgão (caso houver necessidade).

 

A Adoção Em Aberto é também uma forma de compaixão para os pais biológicos, pois estes na maioria das vezes amam muito seus filhos mas não têm como cuidar e sustentar, e escolhem a adoção como o melhor para seus filhos acima de seus próprios interesses.

 

Durante o processo de adoção, quem escolhe quem vai adotar o bebê são os pais biológicos, através de um catálogo de fotos e uma carta auto-biografada pelos futuros pais adotivos. A agência de adoção facilita este encontro entre os pais biológicos e adotivos, e os candidatos são escolhidos a dedo pela agência de acordo com as respostas de uma entrevista detalhadamente elaborada, mais ou menos como uma agência casamenteira. Ambos os pais biológicos e adotivos são entrevistados, e quanto mais compatibilidade nas respostas, maiores chances para uma adoção de sucesso. Meses antes deste encontro, porém, a agência oferece tratamento psicológico e emocional para os pais biológicos (na maioria das vezes mães jovens e solteiras). A Adoção em Aberto também pode ser feita particularmente, sem uso de uma agência adotiva, basta que todas as partes envolvidas no processo estejam dispostas a participar.

 

Nossa História

Tivemos uma experiência incrível aqui nos EUA. Nosso processo burocrático demorou entre fevereiro de 2006 e meados de julho de 2006 (isso incluiu a papelada pela corte do Estado de Nova Iorque, visitas a nossa casa pela assistente social, e preparação do book com nossas fotos e biografia, exames médicos, advogados, juiz de família, impressões digitais, etc etc) . Só depois desta aprovação é que nosso book entra no catálogo de candidatos para ser analisado pelas grávidas considerando adoção para seus bebês. A agência nos avisou que poderia levar entre 1 à 3 anos de espera para sermos escolhidos. Apesar da agência ter outros 50 clientes que chegaram antes de nós, não há uma fila de espera oficial de acordo com a chegada cronológica à agência, pois os candidatos são escolhidos pelas mães biológicas. E foi assim que um milagre aconteceu na última semana de Julho de 2006, quando fomos os escolhidos pela Liz, a mãe biológica da nossa filha — apenas alguns dias depois da papelada ter sido aprovada pela corte de NY e pela agência.

 

Liz já estava com parto previsto para o dia 1 de Agosto. Não havia muito tempo para desenvolvermos uma amizade, e conversamos muito pelo telefone. No dia 2 de Agosto, nos conhecemos pessoalmente e passamos uma tarde inteira juntos em um parque. Conversamos, mostramos fotos, contamos casos, perguntamos sobre o pré-Natal do neném. Tudo em ordem, tudo direitinho. Liz foi uma grávida responsável que cuidou de sua saúde e da saúde do bebê durante a gravidez. Inteligente, simpática, sensível e meiga, uma pessoa de alma bonita que não acredita em aborto. Mas ela, aos 23, não sentia-se preparada para ser mãe. Sem condições financeiras e com um emprego de salário humilde, ela ainda quer muito terminar o último ano de faculdade. Liz é garçonete em uma rede de restaurantes estilo fastfood e trabalhou até momentos antes de entrar em trabalho de parto.

No dia 6 de Agosto, tarde da noite de domingo, Liz entrou em trabalho de parto e sua mãe nos telefonou a caminho da maternidade. Saímos em disparada no meio da noite, e chegamos às 2 da madrugada no hospital (3 horas de carro de onde moramos). Nossa filha Sara Olivia nasceu às 4:15 da manhã de uma segunda feira. Ficamos num hotel próximo ao hospital e passamos a maioria do tempo no quarto da maternidade com Liz, Sara e sua família, além de alguns amigos de Liz que vieram visitá-la. Dois dias depois, Jane e seu namorado assinaram os papéis de renúncia da guarda da filha e a agência nos designou como os pais adotivos da Sara Olivia. Saimos do hospital com nossa filha no colo, um momento em nossas vida que marcou muito. Foi um sentimento incrível, inesquecível, e muito, muito emocionante, pois ao mesmo tempo que celebrávamos a chegada da Sara em nossas vidas, deixávamos para traz um ser humano chamado Liz. Nós nos abraçamos, e não foi possível conter as lágrimas. Durante o abraço de despedida, Liz sussurou ao meu ouvido, “eu amo vocês, e de agora em diante vocês são as minhas três pessoas favoritas em todo o mundo.” Ela depois repetiu o mesmo para meu esposo, Joe. Eu disse pra Liz, em seu ouvido, “a Sara vai sempre saber sobre você, e sobre seu gesto tão nobre.” Joe, disse pra ela: “I think the world of you” (que mais ou menos traduziria como “eu penso tudo que há de bom sobre você).

 

Hoje, a Sara tem 11 semanas de vida. Nossa família é uma família feliz e temos muito orgulho de nossa filha. Tanto os parentes do Joe, que moram aqui nos EUA, quanto minha família, que mora no Brasil, estão virando de felicidades com a chegada da Sara. Nossa casa vive cheia de gente e os parentes e amigos do Brasil curtem as fotos e videos pela internet. Mas ganhamos também uma terceira familia, a família da Liz. Somos muito gratos por termos sido os escolhidos por ela! Falamos com Liz uma vez por semana, por telefone, e enviamos fotos da Sara pelo e-mail. Liz tem sido muito meiga conosco, sempre cuidadosa para nao invadir nosso espaco, sempre nos respeitando como os pais e responsáveis pela Sara.


Vale a pena ressaltar que o processo de adoção ainda não terminou. Durante os seis primeiros meses depois do nascimento do bebê, a agência tem obrigação legal de investigar a família adotiva e preparar relatórios sobre nossa vida familiar, e só então recomendar ao Estado que a adoção se finalize. Portanto, daqui há uns 3 ou 4 meses vamos voltar ao fórum, em frente ao juiz, e só quando o juiz bater aquele martelo receberemos então a certidão de nascimento de nossa filha, contendo nossos nomes como sendo os pais definitivos, e nossos sobrenomes como sendo o sobrenome de nossa filha.

 

 

NOTAS IMPORTANTES:
O processo de adoção é diferente em cada caso, e existem vários níveis de relacionamento entre pais adotivos e pais biológicos, tudo depende das expectativas entre pais adotivos e pais biológicos (estes fatores são levados em conta antes mesmo da agência adotiva unir as duas partes).
— Os detalhes burocráticos da nossa história foram omitidos para facilitar a leitura do texto acima. Para se ter idéia, três estados americanos foram envolvidos em nosso processo, e as leis de adoção são estaduais, portanto a burocracia foi triplicada.
— Há riscos e certas considerações a serem tomadas, e passamos quatro anos lendo e estudando sobre o assunto antes de iniciar o processo. Há muita desinformação na internet, portanto aconselhamos a pesquisar também a credibilidade do autor e fonte de informação. Foi lendo e pesquisando que descobrimos sobre a Adoção em Aberto. Depois que esta possibilidade veio à tona, nenhuma outra forma de adoção fez sentido aos nossos olhos quando se levada em conta as necessidades da criança. Foi uma decisão tomada buscando proteger o melhor interesse da nossa filha, sem levar em conta nossos próprios interesses.
— A Adoção em Aberto nem sempre é viável,  pois infelizmente recém-nascidos ainda são abandonados no meio da noite em calçadas frias, e grávidas sem o apoio psicológico ou educação apropriada ainda pensam que adoção significa nunca mais ver ou receber notícias daquele filho ou filha deixado para trás no berço da maternidade, e esta mesma ignorância sobre o assunto ofusca a visão de muitos pais adotivos, que se recusam a imaginar qualquer tipo relacionamento com os pais bilógicos.
— Nossa história é apenas uma em mais de 1,000 adoções em aberto realizadas pela agência adotiva que contratamos, Friends in Adoption (
http://www.friendsinadoption.org).

— Texto de Jean-Charles, pai coruja. Para entrar em contato comigo, visite meu blog: http://www.2dads.org

— Escrito no Domingo, dia 22 de outubro de 2006

 

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Comments

  • 1/16/2007 12:30 PM Herminio Figueiredo wrote:
    Jean,

    Muito bacana sua história. Tenho orgulho de conhecer uma pessoa tão especial quanto você.
    Parabéns pela adoção da Sara. Tenho certeza de que essa criança vai ser muito feliz ao seu lado e ao lado do Joe.
    Que Deus continue abençoando ricamente a vida de vocês três.

    Grande abraço.
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  • 7/8/2007 10:54 AM Paula wrote:
    Parabens pelo sucesso da adocao!!! Espero essa bencao na minha vida, logo logo; estou meio que comecando minhas pesquisas, pois tenho esse sonho a muito tempo, mas como vivo na Florida, tenho que fazer tudo bem direito, e gostaria de trazer uma crianca do Brasil... bom estou comecando!!! Que Deus abancoe vcs !!!
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